SÃO PAULO - O Marfrig assume hoje (dia 1º de junho) o seu terceiro frigorífico no Uruguai — o La Caballada - e se torna o maior grupo exportador de carne bovina do país vizinho e também líder no abate de gado bovino.
A empresa, que tem nove plantas frigoríficas no Brasil e o segundo maior abate - já adquiriu, em 2006, dois frigoríficos uruguaios, o Tacuarembó e o Elbio Perez Rodriguez. A negociação para compra do La Caballada pelo Marfrig - antecipada pelo Valor - começou já no ano passado. Fontes do setor no Uruguai estimam o negócio em US$ 26 milhões. Procurado, o Marfrig, que está em período de silêncio depois de protocolar pedido de abertura de capital na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), não se pronunciou.
Considerando os números das exportações dos frigoríficos uruguaios em 2006, os três adquiridos pelo Marfrig exportaram US$ 158,7 milhões à frente do Colônia, que exportou US$ 103,2 milhões. Segundo o Instituto Nacional de Carnes (Inac), do Uruguai, no ano passado o Tacuarembó e o Elbio Perez exportaram, respectivamente, US$ 94,3 milhões e US$ 2,9 milhões, e o La Caballada, US$ 61,5 milhões. Nos primeiros quatro meses deste ano, as exportações da mais nova aquisição do Marfrig somaram US$ 22,825 milhões.
Com o La Caballada, o Marfrig também vai liderar o abate de bovinos no Uruguai. Sempre considerando a soma das três aquisições do Marfrig no país, o abate dessas empresas alcançou 458 mil cabeças em 2006, bem à frente do então líder Las Piedras, com 225.614 cabeças. Entre janeiro e abril deste ano, segundo o Inac, o La Caballada abateu 57 mil bois.
Desde 2006, o Marfrig estava de olho no La Caballada, mas uma disputa entre o grupo Prestcott International, que era o controlador do frigorífico, e seu antigo sócio, o uruguaio Oternal S.A, atrapalhou as intenções da empresa brasileira, segundo fontes do setor no Uruguai. O La Caballada, que abate 800 animais/dia (incluindo ovinos), pertencia até abril de 2006 ao Oternal S.A. e à Prestcott. Em maio de 2006, o grupo americano, que tinha 50% da empresa, adquiriu o controle do La Caballada. Segundo fontes próximas às negociações, os acionistas da Oternal acreditavam que a intenção da Prestcott era comprar o controle para revender a empresa ao Marfrig, obtendo lucro com a transação.
A Prestcott negou a intenção. Por isso, o contrato de compra e venda das ações do La Caballada, assinado em 11 de maio de 2006, previa que em caso de o controle da empresa ser revendido ao Marfrig antes do prazo de uma ano (11 de maio de 2007), a Prestcott teria de pagar uma multa de US$ 1 milhão à Oternal. Para o grupo uruguaio, foi exatamente o que ocorreu, apesar das negativas da Prestcott. Diante disso, a Oternal entrou com uma ação na Justiça uruguaia, em abril, contra a Prestcott para provar que o La Caballada foi vendido ao Marfrig antes de 11 de maio deste ano. Fontes próximas à Oternal avaliam que o grupo conseguirá provar que a compra foi feita antes de 11 de maio e obter o valor de US$ 1 milhão, pela proximidade entre esse dia e a data que o Marfrig assumiu a empresa. Segundo essas fontes, um memorando de intenções foi assinado entre o Marfrig e a Prestcott já no fim de fevereiro.
A nova investida do Marfrig no Uruguai é mais um passo na estratégia da empresa de se internacionalizar e acessar mercados importantes (para onde o Brasil não pode vender carne bovina in natura por restrições sanitárias), como os EUA. O Bertin também já está no Uruguai, com o frigorífico Canelones. Com faturamento de R$ 2,8 bilhões em 2006, o Marfrig também tem frigorífico na Argentina, o ABP, e joint venture com a trading chilena Quinto Cuarto.
Alda do Amaral Rocha | Valor Econômico